segunda-feira, 19 de janeiro de 2009

O tal do "quase"

Todo mundo tem ou conhece alguma história de alguém que "bateu na trave". É o quase, esse adverbiozinho sem vergonha que vez por outra dá as caras por aí. O quase é um estraga prazeres, vamos combinar. Você já ouviu falar do Mirolad Cavic? Provavelmente não, aposto. Mas tenho certeza que o Michael Phelps você conhece. Figurinha fácil, esse menino-peixe. Pois o sérvio Cavic foi o cara que quase estragou a festa dos oito ouros do Phelps em Pequim. Faltou um centésimo de segundo, ou uma batida de mão, para que o sérvio ganhasse o ouro nos 200 borboleta. Esse quase, com certeza, ficará marcado para sempre na vida do Cavic.

Um centésimo, uma curva, uma polegada. Pequenas coisas que passariam despercebidas para qualquer um, menos para aqueles que amargaram o quase em suas vidas. Veja o Felipe Massa, por exemplo: num momento, campeão; uma curva depois, vice: e lá está o quase fazendo a sua festa. E a Marta Rocha? Deixou de ser Miss Universo por causa de uma polegada a mais lá na, bem, você sabe onde. Muitas vezes, quem ficou "no quase" é mais conhecido do que o vencedor. Você saberia me dizer quem ganhou da Marta Rocha no concurso de miss Universo? Ou se lembra, sem recorrer à wikipédia, do nome da música que venceu "Pra não dizer que não falei das flores", do Vandré, no festival internacional da canção de 1968?

O poeta já disse que "o quase é uma flor que nasceu em vão". Faz sentido. De que adianta você jogar na loteria e perder por um número? Perder o ônibus porque chegou 1 minuto atrasado no ponto? Não conseguir uma vaga de emprego porque você “quase tem o perfil de que precisamos, mas falta um pouquinho mais”? Deve doer, não? Pior: imagine que você é um candidato político e sua vitória é barbada. Então você nem se preocupa: quase não faz campanha e subestima seu adversário, entrando no clima “já ganhou”. Olha o que esse quase lhe custará: o outro candidato, nem tão barbada assim, faz uma campanha “porrada” e te ganha por uma boa margem. Tchau, tchau, vitória! Coisas assim acontecem, você me entende, não é?

Mas é claro, há quases que vem para o bem. Como os casos de pessoas que deveriam estar em voos que caíram e perderam a viagem por questão de minutos, o que lhes salvou a vida; ou quando você decide mudar sua rota costumeira e acaba se livrando de um assalto. Esses “quases” até que são uma mão na roda. E veja só, até a escritora aqui já foi beneficiada: não fosse minha mãe ter conhecido meu pai, semanas antes de se casar com outro, eu não estaria aqui para contar essa história. Esse sim, foi um bom quase! Ou será que foi quase bom?

terça-feira, 2 de dezembro de 2008

Carta da Alice ao Papai Noel

Querido Papai Noel.

Em primeiro lugar: eu me comportei!!! (embora, se o senhor for tentar confirmar isso com a mamãe, ela vá reclamar, reclamar, reclamar e lembrar do uniforme de judô que mofou porque eu não tirei da mochila pra lavar. Mas pode perguntar pro papai, que ele vai dizer que eu me comportei, sim. O papai é sempre bonzinho).

Eu não vou falar que comi legumes, fiz todo o dever de casa, respeitei os mais velhos e não assisti à TV até tarde porque isso é tudo mentira, e eu sei que o senhor não gosta de mentiras. Pra falar a verdade, eu odeio legumes. Eu jogo todos para o Skywalker, o meu cachorro, sabe? E ele é o único cachorro que eu conheço que gosta de legumes. E o papai diz que eu sou a única criança no mundo que daria o nome Skywalker a um cachorro. Mas é que eu vi sobre ele num dos textos da mamãe, achei o nome bonito. Eu já estou divagando. Na verdade eu não sei o que significa divagando, deve ter a ver com gente lerda, não é? Divagar, devagar, são palavras parecidas. Toda vez que eu começo a fugir do assunto, a mamãe diz que eu estou divagando. O papai grita de lá do quarto que mamãe faz isso o tempo inteiro e ela pára de pegar no meu pé.

Bom, voltando ao que eu fiz (ou não fiz) durante esse ano: o dever de casa, bom, esse eu posso explicar. Não é que eu não goste de estudar. Eu gosto, sim! O problema é que o dever de casa que a professora passa é chato. Eu gosto de escrever. Eu já escrevi um monte de redações e sempre levo pra escola. Mas a professora fala que eu escrevo igual adulto e que tudo tem que ter o seu tempo, que eu tenho de me preocupar com o dever de casa e não com os textos que eu levo. Então, eu fico com raiva e deixo o dever pra lá! Mas no ano que vem eu vou fazer tudinho, eu prometo! E eu até já passei de ano, sem dever mesmo.

Respeitar os mais velhos... bom, é assim: eu até que respeito. O problema é que tem “mais velho” que parece mais novo que eu, e fica complicado de respeitar. Mas eu tento, o máximo possível. Ah, mas os meus pais eu respeito! Até porque, se eu não respeitar, o bicho pega! E quanto à TV... é que tem tanto programa bom passando de noite que eu prefiro assistir à TV depois da novela. A mamãe reclama (aliás, a mamãe reclama tanto! Nunca vi alguém assim), mas no final ela acaba assistindo comigo, então, tenho um desconto nessa, não é, Papai Noel! Tenho o consentimento familiar!

Cá estou eu “divagando” de novo. Acho que o senhor não quer saber da minha vida, porque provavelmente já sabe isso tudo, não é? Eu deveria pedir o presente. É que na verdade, Papai Noel, eu não sei o que pedir. Eu já sei que o papai vai me dar uma bicicleta nova e dizer que foi o senhor que mandou, porque ele faz isso todo ano. E a mamãe, ah, com certeza ela vai surgir com um cubo mágico, um bonequinho de playmobil ou qualquer outra velharia da época dela e dizer que é “um clássico!! Eu sempre quis ter um desse, na sua idade!!” e eu vou agradecer e colocar no canto do quarto, como sempre.

Eu estava pensando em pedir a paz mundial, mas a Sofia, minha amiga da escola, disse que todo mundo pede a paz mundial. Então, como já tem esse pedido, eu acho que o senhor pode dar só a paz pros vizinhos do 305, porque eu não agüento mais as brigas deles. E parece que eles só brigam quando eu sento pra estudar oboé. A Sofia disse que eu sou doida de estudar oboé, que é instrumento de maluco. Eu ando pensando que realmente eu não devo ser normal. De qualquer forma, já seria um presente, sabe? Silêncio enquanto eu estudo, seria ótimo!

Papai Noel, eu acho que eu fiz uma carta muito grande. Falei, falei, falei e não disse nada! Então, vamos combinar uma coisa? Faz o seguinte, deixa a minha vida assim, do jeitinho que ela está, que já está muito bom! Me dá só mais felicidade que eu já fico satisfeita. Não é que eu não seja feliz. Eu sou, mas eu quero ser mais! E felicidade a mais não faz mal a ninguém. Cuida bem dos meus avós, que eu gosto tanto deles! Ah, e olha pelo papai, pela mamãe e pelos meus tios (para eles deixarem de ser tão doidos). Manda um beijo pra vovó do céu, que de tanto a mamãe falar dela pra mim eu sinto que sempre conheci! Ah, atende o pedido da Sofia, também. Eu sei que ela vai pedir pra casar com o Orlando Bloom (um ator aí que a mãe dela era apaixonada) quando crescer. Mas esse o senhor não atende não, dá só o brinquedo que ela pedir. E então é isso! Obrigada e até o ano que vem!


Beijos,


Alice.





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Tá, tudo bem, dessa vez eu viajei. Essa seria a Alice, daqui a alguns anos (alguns anos MESMO), escrevendo pro Papai Noel. Mas é desse jeito, desse jeitinho aí, que eu imagino que a minha Alice vai ser quando vier ao mundo. Se ela for só a metade do que eu espero, já estará bom.

A idéia dessa carta surgiu por causa de outra: a carta do Victor, um garotinho de 6 anos que eu nem conheço, mas que escreveu para o Papai Noel e deixou a cartinha nos correios, para, quem sabe, ganhar um presente. Eu decidi ser a “Mamãe Noel” dele. Quer fazer o mesmo e ter um Natal diferente? Vá aos correios de sua cidade e adote uma cartinha. Tem muita criança por aí esperando por esse presente. E se eu não voltar por aqui antes do Natal (o que provavelmente acontecerá), desejo a você, leitor guerreiro que ainda agüenta o que eu escrevo, um feliz Natal e muitas felicidades no próximo ano! Que virá com mais textos, mais devaneios e mais “sonhos de ser legal”!

quarta-feira, 29 de outubro de 2008

Eu só quero escrever

Pronto. Tudo o que eu queria dizer hoje está no título. Eu me cansei desse negócio de métrica, de metalinguagem, de tentar fazer algo bonitinho. Na verdade, o que eu quero - e sempre quis mesmo, devo frisar - é escrever. O que me der na telha, o que eu acho interessante, e não o que os outros acham bonito. Quer escrever bonito? Então escreva você!

É claro que (e nesse ponto você estará certo) você pode me dizer que isso vai de encontro ao meu sonho de ser legal. Afinal, se eu almejo que as pessoas me achem cool eu devo no mínimo tentar agradá-las. Eu tento, mas quer saber? É demais para mim. Pessoas são difíceis demais de se agradar. Eu então, que até que se prove o contrário também sou uma pessoa, sou praticamente impossível. Sou a "excelência em exigência". E é justamente por me tomar como exemplo que eu desisti de fazer textinhos garbosos e pomposos. Quero mesmo é reclamar, falar mal, fazer piada, e que se dane quem acha que eu deveria "pensar melhor antes de colocar no papel". Quem pensa demais demora 40 anos para descobrir que casou com a pessoa errada e que só seria feliz se tivesse fugido no altar com o namoradinho da adolescência.

Se eu sou uma boa escritora e se tem gente que gosta, não sei, não me importa. Na verdade, escrever para mim é terapia. Me estresso, extravaso tudo no papel; explodo de felicidade, então o caderninho vai ser o primeiro a comemorar comigo. Simples, não? O mesmo processo da criança que ganha um diário e nele conta todas as suas aventuras. "Querido diário, hoje caí da bicicleta e a mamãe falou que eu não preciso ir pra escola. Oba!". É essa a emoção que eu sinto quando escrevo. Pouco ligo se eu não concordar o verbo com o sujeito. Pode ser que o sujeito seja tão mal-encarado que o verbo fique com medo e vá embora, hahaha.

Alguém poderia me perguntar: de onde saiu tamanha revolta? Pois é, não sei. Talvez seja reflexo da crise de 29 que se aproxima. Talvez seja apenas cansaço, mesmo. Tem horas em que a gente cansa. Muito provavelmente, daqui a algum tempo, eu vou ler novamente esse texto e achá-lo ridículo. Mas o que importa é que, por hora, ele cumpriu seu propósito. E agora, se me dão licença, eu vou é escrever, que é o melhor que posso fazer. Ou não!

terça-feira, 2 de setembro de 2008

Desapego

A gente tem umas manias estranhas. Acho que a mais estranha delas é essa de se apegar às coisas, ou às pessoas. Eu, por exemplo, tenho um mini travesseiro que me acompanha, veja só, desde o meu nascimento. Não consigo dormir sem aquele pedaço de espuma velho. Eu até tento me livrar dele, mas não consigo. Já se transformou em parte da minha vida.

Com as pessoas não é diferente. Todo mundo tem uma certa fissura por alguém; não adianta falar que com você não é assim. Pára um pouquinho e pensa: em algum momento da sua vida isso lhe ocorreu. Quer ver um exemplo? Os pais. Quando os filhos(as) arrumam namorados(as), e a coisa começa a ficar séria, os pais entram em desespero. É um tal de “ela não serve para você, meu filho”, ou então “esse moleque não presta, minha filha”; e quando a família tem posses: “só tá interessado(a) no nosso dinheiro”. Isso tudo é porque eles simplesmente não suportam a idéia de perder seus queridinhos para outra pessoa. E não só eles são assim. Quando surgem novas amizades na vida de alguém, aquele amigo que foi “trocado” também fica mal. Começa a ficar ciumento. Quer o amigo só para ele. Não sai de casa, entra em depressão. Até que ele, também, consegue outras amizades, e a coisa se inverte.

É por essas e outras que eu, a partir de agora, farei (e sugiro a todos) a técnica do desapego: vou tratar de não me ligar em nada, ou melhor, vou me ligar em várias coisas ao mesmo tempo. Vou arrumar mais de um hobby, dessa forma não me vicio em um só; amigos, então, vou colecionar aos montes. Vários namorados? Essa, realmente, me parece uma excelente idéia! Ah, já estava me esquecendo: bichinhos de estimação. Além do cachorro, vou arrumar papagaio, tartaruga, peixe... tudo para que quando um falte eu tenha outro logo ali, por perto.

Alguém pode dizer, então, que a melhor técnica de desapego é simplesmente não ter nada, nem ninguém. Mas aí perde a graça – a pessoa se transforma em rabugenta. E ninguém quer ser amigo do Sr. Scrooge (aquele que foi visitado pelo fantasma do natal passado, lembra?). Então, o lance é ter tudo-ao-mesmo-tempo-agora. Assim, corre-se bem menos risco de sofrer com a perda. Aconselho o mesmo a você que também passa por essas situações. E viva o desapego!


(P.S.: Esse texto revoltado nasceu após uma noite mal-dormida, por conta de não ter encontrado meu querido travesseirinho... ele me paga, assim que eu achá-lo!)

segunda-feira, 25 de agosto de 2008

Crise de 29, prólogo

Não, esse não é um texto sobre história, nem sobre política. Do famoso "boom" da bolsa de Nova York só peguei o título emprestado. Estou pensando, mesmo, é na minha crise de 29. Vinte e nove anos de idade. Ainda está relativamente longe, faltam seis meses, mas eu já ando estressada desde já.

O meu problema, eu imagino, está no número nove. Não entendo desses modismos de cabala, astrologia e besteiras afins, mas se acreditasse nisso muito provavelmente o nove na minha vida seria alguma coisa muito ruim ou muito louca. Aos nove anos de idade, eu surtava antes das competições de natação. Só "pegava no tranco" depois de uns bons berrros do treinador. Aos dezenove, precisei de terapia para me convencer de que não morreria quando completasse vinte anos (é, eu passei por um período paranóico nessa minha vida severina. Vai dizer que você nunca foi assim?). Agora, a alguns meses de completar vinte e nove, essas loucuras retornam à minha mente. Começou a pesar o fato de que em um ano e meio deixarei a casa dos 20. Estou perto de me tornar uma mulher de Balzac! Hoje, também, eu olho para trás e tento recapitular o que já fiz de bom. O que eu deixaria de legado se fosse banida da Terra hoje, vinte e oito anos depois de chegar aqui? Se me perguntassem isso, precisaria de um tempo para responder.
Uma vez, há alguns anos, coloquei no papel as coisas que queria fazer a curto prazo. Me formar na faculdade e de preferência, deixar a pós no gatilho; arrumar um emprego novo e um salário decente; praticar um novo esporte; fazer uma viagem ao exterior; tirar a carteira de motorista; aprender a tocar um outro instrumento musical. Passados três anos, até que eu consegui bastante coisa: A faculdade, eu terminei; a pós vai ficar pra mais tarde. O emprego é novo; o salário... bom, esse vai melhorando aos poucos. Além da natação, agora eu também pratico judô e recentemente, Jiu-jitsu. As aulas de baixo acústico já estão encaminhadas, e ainda tenho pouco mais de um ano para correr atrás da carteira de motorista. A viagem ao exterior, a curto prazo, vai ficar difícil. Mas ainda está nos planos.

Uns dias atrás eu fui ao médico e ouvi dele um termo engraçado: estou na fase da "adultescência". Segundo ele, até completarmos 28 anos, ainda não somos adultos "de fato", embora já o sejamos "de direito". Esse é o tal período de formação em que corpo e mente deixam de agir como adolescente e passam realmente a ser a parcela séria da sociedade. Não sei se serviu para me animar ou para me derrubar. Espera aí, quer dizer que só agora eu sou adulta? Fui enganada! Vou ter de começar tudo de novo!

Mas então, o 29 está chegando e eu me preocupo com as coisas surreais que podem acontecer, dado o meu grau de esquisitices. Eu sei que já deveria ter desencanado. Todos falam que a idade é só mais um número em nossas vidas. Pode até ser. O fato é que já estou com "caraminholas na cabeça", como diria minha avó. Nem sei porque resolvi falar disso. Acho que só precisava mesmo compartilhar com você, leitor (você ainda está aí? depois desse tempo todo...), mais uma das minhas esquizofrenias. Eu disse esquizofrenia? Hum, isso me deu uma idéia... mas é melhor deixá-la para o epílogo!

quarta-feira, 2 de julho de 2008

Um zero e as letras

Estou passando por um momento de "crise literária". Para falar em bom português, não sei o que escrever. Você já deve ter percebido isso, se observou a data do meu último texto. Pois bem, como eu não sei falar de outra coisa a não ser de mim mesma (narcisista? imagina!), vou contar mais uma historinha da minha vida, hahaha. Essa é legal, você vai até gostar.

Para quem não sabe (e pra quem sabe também), minha formação acadêmica é em Letras/Inglês. É justamente aí que mora a grande ironia da minha história de hoje. Eu, hoje formada, só escolhi a faculdade num momento de pura revolta e desejo de competição. Meio estranho, não? Pois é, mas eu sou extremamente competitiva e odeio perder. Sempre fui assim desde pequena. Lembro-me das brigas homéricas que tive com a Blanca, minha melhor amiga da época de natação, porque as duas queriam chegar em primeiro e quando uma perdia, passava a ser a chacota da outra por uma semana. Nós brigávamos, mas logo a paz se restabelecia. Até a próxima competição, claro.

Está bem, mas o que isso tem a ver com a minha graduação? Tudo. Eu só escolhi as Letras porque eu perdi. Para mim mesma. No vestibular. Se eu não tivesse me dado mal naquele vestibular, lá atrás (caramba, isso já faz oito anos! estou velha mesmo), seria hoje uma advogada (ai Jesus, que perigo) formada pela tradicional UFOP, de Ouro Preto. Acontece que no meio do caminho havia uma pedra, ou melhor, uma prova de inglês. E eu tirei zero. Isso mesmo, eu fiz o favor de zerar a prova de inglês e jogar pelo ralo a sensacional redação que eu havia feito na prova. Nem eu mesma acreditei que tinha sido escrita por mim. Eu parecia possuída, é sério! Mas de nada adiantou, uma vez que é condição fundamental para a aprovação ter uma pontuação mínima em todas as matérias. Eu consegui o mais difícil: De dez possíveis, acertei seis questões de física. E eu a física nunca fomos lá grandes amigas.

Na hora da prova de inglês, eu fui uma verdadeira displicente. Achei o texto fácil. "Isso aqui? Moleza! Faço em dez minutos". Claro, o texto não estava tão fácil assim. Era cheio de cognatos e pegadinhas. E foi nelas que eu caí. Dez questões. Nenhum acerto, aliás em muitas delas eu passei longe. Não fosse a minha displicência, teria dado mais atenção àquela prova. Lição anotada e aprendida, logo que vi o resultado. Pela minha pontuação, teria sido aprovada, mas não consegui a vaga por causa daquele zero infeliz. Nem preciso dizer o quanto fiquei decepcionada. E o quanto me irritei ao voltar à minha realidade de estudante de pré-vestibular derrotada. Me senti como um atacante que perde o pênalti na final do campeonato.

Ah, mas aquele zero idiota não ia ficar rindo da minha cara. Não, mesmo! A minha primeira providência foi retornar ao cursinho de inglês. Afinal de contas, eu ainda desejava ser advogada (ou jornalista, mas disso eu acabei desistindo, outra história traumatizante) e para isso teria de ir bem em todas as matérias. Ou seja, nada de inglês vagabundo. Dessa vez eu ia ganhar aquele jogo. Ah, claro. Não tive como bancar dois cursos ao mesmo tempo. Decidi abdicar temporariamente do pré-vest e da faculdade para me dedicar ao inglês. Até ter capacidade para conseguir uma nota de respeito, o que, do alto do meu perfeccionismo exagerado, deveria ser acertar todas as questões da prova.

Dois anos depois, lá estava eu, ainda obstinada em reverter minha derrota vexatória. Nesse período, tive sonhos estranhos, em que zeros gigantes me perseguiam pelas ruas. Ou então eu era engolida por um zero quando tentava novamente fazer a prova do vestibular. Aquilo já estava me deixando irritada. Já estava se transformando numa questão de honra. Eu nem me importava em passar no vestibular, queria mesmo era ir bem na prova de inglês. Foi nesse momento que as Letras entraram na minha vida. A professora de inglês sugeriu o curso, e não é que a idéia me pareceu interessante? Afinal, se eu chegasse ao fim com boas notas, conseguiria derrotar, espezinhar, amassar, estraçalhar aquele zero humilhante. E minha vingança seria completa.

Bom, o resultado foi que eu passei no vestibular (acertando todas as questões de inglês), ralei bastante, tive uma relação de amor e ódio com o curso, mas o saldo final foi positivo. Por fim, não tenho mais pesadelos com zeros me perseguindo. Posso dormir tranqüila, pelo menos até que o próximo desafio entre na minha reta...

quarta-feira, 28 de maio de 2008

Houston, we've got a problem...

Ando meio preocupada com algumas coisas. Especialmente com a mediocridade das pessoas. Sabe aquela máxima do "não sei fazer, mas faço nas coxas"? Isso acaba com a boa imagem de qualquer cidadão.

O que ocorre ultimamente com quase todo mundo é justamente isso. Tem gente que não sabe determinada profissão, ou não tem habilidade para alguma coisa, e sai se metendo a fazer de qualquer jeito. Se você não for bom, é passado para trás, concorda? Deveria ser assim. Deveria, mas não é. Hoje reina nesse mundo de meu Deus o universo "meia-boca". Para onde a gente olha, tem sempre um "estepe". Eu, sinceramente, não concordo com essa nova onda. Acredito que não vim ao mundo para ser apenas um rascunho. Quero (e acredito) ser boa profissional. Raciocina comigo: você é empresário e contrata alguém para trabalhar, sei lá, na recepção da sua empresa. Findo um mês de trabalho, o tal funcionário novo não consegue dar um "bom dia" a um cliente ou sequer anota recados. E não faz o mínimo esforço para ser agradável. Você, em sã consciência, renovaria o contrato do tal infeliz? Eu não.

O exemplo foi bobo, mas acontece na vida real. Estou falando isso porque acompanhei uma situação como essa há alguns dias. Era uma apresentação de Jazz. Orquestra norte-americana. Havia necessidade de um intérprete para os músicos, uma vez que ocorreram discursos em português. Eis que a tal "intérprete", ao traduzir a fala do apresentador, começou a cometer erros primários! Alguém falou: "é nervosismo". Eu penso diferente. Não é nervosismo, é despreparo. Desmazelo. É o tal negócio: "aprendi 6 palavras em inglês. Já sou fluente!". Acontece sempre. É o mesmo caso daquele "músico" de boteco que aprendeu quatro acordes e toca assim todas as músicas que conhece. E o povo gosta! E aquele que estuda, rala, se acaba de tanto treinar não é valorizado. É incrível. Ser bom, hoje, não quer dizer muita coisa.

Mas sejamos realistas: pra se conquistar algo é necessário ser bom. Não digo ser perfeito, pois isso ninguém é. Mas no mínimo é preciso ser esforçado e ter talento para o que se pretende fazer. Acha que o menino-peixe Michael Phelps, da natação, seria esse fenômeno que é hoje se não ficasse 10 horas por dia na piscina, treinando sem parar? Ou o espanhol Rafael Nadal, do tênis, seria o "Rei do Saibro" se não tivesse um mínimo de traquejo com a raquete? E olha que estou citando apenas o esporte.

Eu poderia dar um monte de exemplos de gente boa. Você, leitor guerreiro, provavelmente também tem vários exemplos aí. Também poderia citar vários "um-sete-uns" que estão aí prejudicando a imagem de quem é competente, capaz e não consegue seu lugar ao sol. E acredito que, assim como eu, você deve se irritar com esse pessoalzinho mais-ou-menos que está à solta, por aí, às vezes até competindo com você e se dando bem. Não sei dizer o porquê disso acontecer. Gostaria realmente de entender o motivo que faz a sociedade desprezar o talento e exaltar a mesmice. Será que quem é bom é acomodado? Não sei. Será que faltam oportunidades? Talvez. Será lobby em favor do vagabundozinho meia-boca? É, quem sabe?

Em resumo: hoje meu protesto é contra toda essa gente que prefere se meter onde não deve e fazer pela metade a batalhar para ser bom profissional. Não é só a Apollo 13 que tem problemas. Nossa sociedade passa por um problema de semi-profissionalismo crônico. Quanto a mim, já disse e repito: não estou no mundo para ser rascunho. E você, está?